quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Stanislaw Ponte Preta - Eu não sou uma qualquer!


Ela notou que ele estava meio bronqueado por causa das respostas monossilábicas que dava às suas perguntas. Conhecia-o muito bem. Quando ele ficava emburrado para falar é porque estava com minhoca na cuca. - Que é que há, meu bem? Você está meio chateado! Ele não respondeu logo. Meteu um suspensezinho legal, puxando uma tragada forte do cigarro. Depois caminhou até o armário da sala, tirou uma garrafa de uísque e deu aquele gole prolongado no mais belo e ultrapassado estilo Humphrey Boggart. Depois sentou-se na poltrona, cruzou as pernas e disse: - É … Andaram me buzinando ai umas coisas. - A meu respeito? – e ela espalmou a mão sobre o cobiçado busto. Novo silêncio, e a distinta, muito preocupada, levantou-se de onde estava e foi se aninhar no colo dele. Fez vozinha de criança: - Meu queridinho, conta pra ela, vá! Deve ser mais uma fofoca dessa gente, mas é melhor você contar logo pra ela, sabe? Assim a gente tira logo as dúvidas. Não gosto de ver o meu querido zangado não – e começou a enfiar os dedos esguios e bem tratados pelos cabelos dele. O cara suspirou, todo despenteado, e foi soltando o que tinham contado pra ele. Tinha sido na noite de apresentação do Charles Aznavour, no Copacabana Palace, a mais recente badalação de grã-fino com venda para excepcionais. Agora a moda é esta: tudo o que é festa de grã-fino é para dar renda para excepcionais, pois ninguém é mais excepcional do que um grã-fino. Ela tinha ido à tal apresentação do cantor Frances e fizera muito sucesso. A Léa Maria até deu uma nota no Caderno B, dizendo que Eloá estava um “show”. De fato (enquanto ele falava ela ia se recordando), o seu vestido “op-art”, com mini-saia, foi um sucesso. Era daquela saia que, quando a mulher senta, a saia some e aparece o que a saia tinha obrigação de fazer sumir. Um fenômeno da elevação dos costumes – como diz a veneranda Tia Zulmira. - Me disseram que você flertou a noite toda – o cara falou. Ela esticou-se, ainda sentada em suas pernas. Outra vez a mão espalmada sobre o cobiçado busto: - Eu??? Ele ratificou. Ela mesma. Tinham contado pra ele que ela dançara de rosto colado com um tal de Collatini. Ela ficou indignada. De fato, os Collatini, de S.Paulo, estavam na mesa dela, mas isto era uma infâmia. Imaginem, logo quem? O Collatini, aquele velhote. De maneira nenhuma. De mais a mais, a Bequinha, mulher do Collatini, era sua amiga de infância. Essa gente é assim mesmo. Quando não tem nada para comentar sobre uma mulher… Inventa. Dela eles não podiam dizer nada, ta bem? Absolutamente nada. Nunca deu margem para falatório nenhum. Pelo contrário: procurava se portar em público – aliás, procurava se portar em qualquer lugar, ora esta! – com a máxima dignidade, justamente por isso. Porque sabia que essa gente de sociedade é fogo; não pode ver uma mulher bonita fora da panelinha desses cretinos, que começa logo a tentar descobrir coisas, para fazer dos outros gente igual a eles. É isto mesmo: falam só para justificar a vida que levam, esses animais. Mas com ela não. - Comigo não – repetia indignada: – Eu não sou uma qualquer! Ele, impressionado com a reação dela, puxou-a para o seu regaço. Deu-lhe mais um beijo e falou baixinho que sabia disso, sabia que ela não era uma qualquer. Pouco depois ela se levanta do colo dele, ia até o banheiro: ajeitou-se, pintou-se e de lá mesmo perguntou: - Meu be-em! Que horas são? - Quase seis! – respondeu o cara. Ela veio espavorida lá de dentro, deu-lhe um beijinho rápido, apanhou uns embrulhinhos de compras que deixara sobre a mesa, quando chegara, e despediu-se: - Tchau, querido! Deixa eu correr se não meu marido me mata! E foi embora. Fonte: Almanaque Info http://almanaque.info

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