segunda-feira, 2 de novembro de 2015

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O TESOURO DO CARPINTEIRO

Conto original de Pedro De Repide (1926)

A tradição dos tesouros ocultos é a mais rica, a que tem proporcionado á imaginação popular mais variadas fantasias. Grande talismã é o ouro que a só esperança de o possuir desperta inspirações nas inteligências mais rudes. Vivia em Toledo um carpinteiro dos mais hábeis, destro no lavrar toda a classe de madeiras; mas a despeito de sua arte, não prosperava por falta de crédito e encomendas.

Passava o melhor sem trabalho e, então como não era dado ao ócio, ocupava as horas lendo meia dúzia de livros, que comprara de um vendedor ambulante, quase todas obras de poesia. Embora sem grande instrução, a força de ler, o carpinteiro começou a compreender a beleza do ritmo e da rima, o encanto das imagens poéticas e tanto se entusiasmava nesse passatempo intelectual, que deu para decorar os versos e recitá-los em voz alta. Fazia-o porém a sós, fechado em sua modesta loja, pois temia que a fama de "letrado" ainda mais o prejudicasse no ofício.

Mas nada lhe adiantou esse cuidado. Como se um destino mal o perseguisse, a freguesia o abandonava e, esgotadas suas economias, ele não encontrou mais crédito para executar os poucos trabalhos que lhe apareciam.

Um dias, desesperado e não sabendo mais que desculpas dar aos credores, que já o perseguiam com severa insistência, o pobre carpinteiro resolveu acabar com a vida e fazê-lo de modo a dar uma lição a todos os que o desprezavam e perseguiam.

Traçou o seguinte plano: mandaria chamar todos os credores em dia e hora certos e, quando chegassem todos,  encontrariam-no  morto, estendido num ataúde, que ele mesmo ia fazer ocultamente.

O que ele ignorava é que suas leituras e sobretudo seu habito de recitar versos haviam criado em torno dele uma lenda tétrica que ainda mais havia afastado os fregueses de sua loja.

Não podendo imaginar que ele se fechasse para ler livros inocentes, os vizinhos bisbilhoteiros e maldizentes entraram a dizer que ele se dava a estudo da magia e recitava encantamentos para invocar os espíritos do mal; alguns tendo-o espionado á noite, nos momentos em que ele declamava com grandes gestos, chegaram a afirmar haver visto o demônio a seu lado, animando-o com gestos paternais. Inteiramente alheio a essas fantasias, o carpinteiro tratou de por em prática seu trágico plano. Mas chegara a tal miséria que não tinha com que comprar a madeira necessária para fazer seu caixão funerário e não encontraria, de certo, quem lho emprestasse. Mas lembrou-se de que, por ocasião da última festa na aldeia, houvera fogo de artifício e o madeiramento das peças principais ainda estava fincado no rio. Ser-lhe-ia fácil ir até lá, alta noite e trazer as taboas de que precisava.

Dito e feito. Escolhendo a noite mais escura e tempestuosa, em duas ou três viagens trouxe a madeira necessária e, fechando-se na adega de sua casa, para não ser visto, começou a fazer o próprio caixão. A idéia de que ia ficar livre de todos os sofrimentos e da peça que ia pregar a seus credores, animava-o tanto que o fazia esquecer o horror de sua resolução.

Como não tinha mais senão oito dias para viver, resolveu aproveitá-los bem e, lançando mão dos recursos que lhe restavam, começou a almoçar e jantar lautamente, a beber como um granadeiro e a cantar coplas joviais. Ao mesmo tempo mandou um aviso a todos os credores para que o fossem procurar, no domingo seguinte, ao meio dia, levando suas contas com recibos.

Toda a aldeia, surpreendida, entrou a indagar que transformação teria ocorrido na vida do carpinteiro para que ele agisse assim. Alguns atreveram-se a interrogá-lo; ele respondeu simplesmente que, em breve, todos quantos o haviam desprezado e atormentado se arrependeriam. As conjecturas multiplicaram-se e os vizinhos começaram a dizer o que sabiam ou julgavam saber. Afirmaram que, havia já muito tempo, o carpinteiro se dedicava á magia negra e invocava o Demônio. Provavelmente este acabara por fazê-lo achar algum tesouro.

A explicação foi imediatamente aceita porque nenhuma outra permitia compreender a súbita alegria do carpinteiro, seus gastos desusados e o mistério com que ele se fechava na adega.

- É para contar o tesouro - diziam.

Quando o hoteleiro contou que, tendo ido pescar, á noite, vira o carpinteiro tirar do rio um pesado volume, que transportara para sua casa com grandes precauções, não houve mais dúvidas e a imaginação popular começou a bordar fantasias sem fim sobre o tesouro, até que acabou por firmar a lenda de que o carpinteiro encontrara, no fundo do rio, uma galera romana, naufragada com um carregamento de ouro.

Então, foi de ver como toda a gente mudou no modo de tratá-lo. Os credores impressionados com a rispidez da convocação, foram os primeiros a procurá-lo, afirmando que não tinham pressa alguma de receber o que lhes era devido e, ao contrario, punham a sua disposição o de que precisasse para empreender qualquer trabalho de grande monta.

Alguns até insistiram em deixar em suas mãos novas quantias; pois convinha conquistar as boas graças de um homem que, dispondo de grande riqueza, ia, de certo, tornar-se poderoso e influente na aldeia. Outros fizeram-lhes encomendas de valiosos trabalhos.

O carpinteiro não tardou a conhecer o motivo por que o tratavam agora de modo tão diverso; mas, como a boa vida, que havia passado naqueles dias o tinha reconciliado com os gozos deste mundo, resolveu adiar seu suicídio para quando se visse novamente em face de necessidade imperiosa.

Nunca mais se lhe apresentou semelhante conjuntura. A crença na existência de um tesouro descoberto por ele mudara as disposições de quantos o conheciam. O fato de dizer que trabalhava unicamente por gosto, para se distrair, fez com que todos lhe trouxessem encomendas por preço mais alto do que o normal; até a Municipalidade o encarregou de restaurar os madeiramentos internos da Sé, votando para isso um crédito avultado, que lhe permitiu executar uma obra de arte verdadeiramente notável: e isso lhe valeu encargos mais importantes das aldeias vizinhas e até da cidade mais próxima.

O carpinteiro porém teve o cuidado de desmentir abertamente a lenda do tesouro: ao contrario, para reforçá-la, mandou colocar uma sólida e aparatosa porta de aço na adega da casa, que reformou e melhorou, mas que não abandonou, nunca.

Quando ele faleceu, muitos anos depois, rico e considerado, correram ansiosamente a abrir essa adega e encontraram apenas o modesto ataúde feito nos dias de miséria e desespero.

Era seu único tesouro e, encerrado nele, o carpinteiro levou-o para o tumulo.


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